O que eu devo ao Latim
Luis Fernando Verissimo
Já contei como o Latim foi importante na minha formação cultural.
Quando a gente passava do primário para o ginasial, como se dizia na minha época de estudante – um pouco depois da Idade Média -, passava de um mundo protegido para outro muito mais desafiador, em que a professora de tudo era substituída por professores de cada matéria, geralmente homens se qualquer instinto maternal.
Entre os terrores que me esperavam na primeira serie ginasial, o mais assustador era o Latim, e, mesmo antes de conhece-lo, decidi que não nos daríamos bem. Desde o primeiro dia e por todo o ano escolar, minha presença nas aulas de Latim limitou-se ao nome no livro de chamada. Enquanto meu nome ecoava, sem resposta, na sala de aula, eu descia o morro no topo do qual ficava o glorioso Instituto Porto Alegre e ai assistir aos treinos matinais dos cavalos no Jockey.
Eu gostaria de contar que o resultado disto foi que, em vez das declinações, aprendi a observar os cavalos, tornei-me um expert em cronometragem, linhagem, handicaps e mutretas de cocheira, comecei a apostar cientificamente e tornei-me um milionário antes dos quinze. Mas não foi o que aconteceu. Não aprendi nem as declinações nem as mutretas. Mas frequentei um mundo fascinante que de outra maneira não teria conhecido.
Nunca apostei em corridas, mas meu enriquecimento cultural foi inegável: nenhum outro garoto da minha idade sabia tanto sobre a forma dos cavalos do Jockey. No fim do ano letivo já estavam tão habituados com a minha presença nas pistas que fui convocado a segurar um balde, já não me lembro mais para o quê. Cumprimentava os treinadores, sabia distinguir os cavalos e devo até ter feito comentários sobre melhoras no desempenho de alguns. Tiveram a suprema deferência de jamais perguntar o que eu fazia ali, em vez de estar na escola. E tudo isto – sem falar no saudável exercício de descer e subir o morro respirando o puro ar da manhã – eu devo ao Latim.
No fim do ano, quando me apresentei para o inescapável exame oral, o professor de Latim fez questão de apertar minha mão e dizer “Muito prazer”. Só me conhecia de nome.
Tive que repetir o ano, claro. Mas o que o Latim tinha para me dar, já tinha dado.
O IPA não e mais o mesmo – agora aceita meninas, coisa impensável na época -, a área onde era o Jockey Club (e o campo do Grêmio) hoje é um parque, e eu mesmo já não estou bem aqui. Mas ouvi dizer que estão pensando em reintroduzir o Latim no ensino médio. Que a garotada de hoje saiba aproveitá-lo como eu.
O QUE FALTA
Às vezes a gente pensa que o que falta no mundo é menos prosa e mais poesia. Menos palavras de ordem e de ódio, menos discursos mentirosos e mais versos. Mas aí a gente pensa: a poesia também pode ser mortífera. São poéticos os textos sagrados pelos quais muitas pessoas matam e morrem. E o que dizer dos hinos? Muitos têm rimas que mobilizam nações inteiras para se impor no mundo e matar seus vizinhos. Já se sugeriu que uma maneira de tornar as guerras menos custosas em termos de vidas e propriedade seria substituí-las por concursos de hinos: o país com o hino mais feroz venceria. O poderia de um país dependeria de ele ter não os maiores exércitos ou os melhores generais mas os melhores poetas – ou pelo menos os mais sanguinários. Não, fazer poesia também traz o risco de inspirar a morte. O que falta mesmo no mundo é silêncio.
Domingo, 8 de julho de 2007.
Desenvolvido por Carlos Daniel de Lima Soares.